O que a Clara já me ensinou.

Nesta primeira semana de vida, Clara tem me feito lembrar de várias coisas, como da importância de observar o outro nas relações, compreender seus processos, seus tempos. Lembrei do quanto é importante, não anular-se, mas sem dúvida, abrir um espaço pra que o desejo do outro apareça, porque as vezes a avidez em colocar o nosso desejo, abafa o desejo do outro e aí começam os desencontros. É claro que tem que ser uma via de mão dupla, mas acho que cabe a quem percebe isso antes, iniciar o processo e assim, no meu caso com a Clara, ela vai revelando suas necessidades básicas atravé de seus códigos e eu vou decifrando-os e atendendo-os dentro do meu possível. Ela tem o tempo dela, eu tenho o meu tempo.
Tenho lembrado também da importância de estar inteira em cada ato, concentrada, pois há muito que o corre-corre do dia-a-dia, tinha me transformado em alguém que transitava o tempo todo entre o que deixei de fazer e o que ainda precisava ser feito, restando pouco tempo pra estar verdadeiramente inteira no que efetivamente estava fazendo. Com ela tem que ser assim: minha atenção, meu tempo, só cabem no agora. A atenção tem que estar totalmente voltada pra tarefa que está sendo executada, pois no caso o que está em jogo, ou melhor, nas minhas mãos naquele momento é uma vida. Literalmente.
No dia em que a Clara nasceu, um pessoa bem próxima estava indo enterrar a mãe e me lembrei também que a roda da vida não para. Olhar pra Clara me faz lembrar a cada momento que a vida é um presente, o nascimento é um milagre, na acepção primitiva da etimologia da palavra, que significa "coisa extraordinária, coisa admirável de ver". Pois é essa coisa extraordinária que está despertando velhos sonhos (profissionais e pessoais) adormecidos por acomodação e por medo. Diante de uma vida que se inicia com todo seu vigor e um todo um "porvir", o medo é uma bobagem.
Um dia na vida de uma criança traz milhões de descobertas. Me peguei falando com o amigo médico, ao narrar a freqüência da troca de fraldas da Clara. Disse eu assim “antigamente, eram 3 fraldas por dia”. Clara tinha apenas 5 dias. Na verdade eu estava me referindo da freqüência dos últimos 5 dias, mas tanta coisa já tinha acontecido, que parecia fazer muuuito tempo.
Agora ela me chama e lá vou eu, aprender mais um pouquinho.
Juli Mariano